Pode ser que seja assim mesmo na realidade, com os outros, mas eu, eu não sou assim, eu sou confuso e complicado, e então tudo fica confuso e complicado, as coisas, as pessoas, o mundo todo, e começa a sair tudo errado, e a gente começa a ter medo e a encolher-se num cantinho escuro, porque se a gente mexe o dedinho, cai um elefante na cabeça da gente, e então a gente não mexe nem o dedinho e fica bem quieto lá no escuro, olhando as pessoas que passam juntas lá fora, alegres e rindo, e sem entender por que as pessoas estão lá fora e eu estou aqui escondido e com vontade de estar lá fora também com as pessoas, e então vai dando uma tristeza muito grande na gente e uma vontade de nunca mais sair do escuro, e, quando vê, a gente já está mexendo o dedinho para um elefante cair na cabeça, mas nenhum elefante cai, nenhum, e então o céu fica vazio de arrebentar o coração, e tudo fica mais escuro ainda.
VILELA, Luiz. Tremor de Terra . In: Tremor de terra. São Paulo: Publifolha, 2003. p. 153.
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