Dia de finados. Não me lembraria da data se não ligasse a televisão. Penso comigo se deveria ir ao cemitério. No mínimo duas pessoas mereceriam minha visita: dois grandes avôs que tive. E um outro, lá longe. Tenho pensado bastante neles nos últimos tempos e minhas lembranças cada vez mais vivas. Do primeiro, a viva lembrança de um saco cheio de figurinhas numa bela tarde de domingo e um cachimbo no quarto dos fundos. Do último, um pé cheio de jaboticabas, um dinheirinho pra comprar pipoca, um sorriso bacana, sincero. Do segundo, jogos, idas e vindas a escola, futebol, cuidados do cachorro, a volta do karate, sempre se escondia e aparecia de repente querendo me assustar. Seu jeito de falar, sua bondade. Sinto-me culpado, frágil, como se traído pela ignorância. Por tão pouco tempo não pude ajudar. Penso no que faria se fosse hoje. Será que ajudaria, será que realmente prestaria atenção? Será que essa vida permitiria? Será que eu usaria essa desculpa da pressa da vida? Até quando vou usá-la? A gente vai levando a vida do jeito que dá, tenta viver, tenta sorrir, tenta se esquecer da dor, tentar lutar, tenta vencer, mas se esquece de olhar certas coisas e, quando a gente vê, já é tarde... e quando é de um dia pro outro...
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